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Algodão
e Melancolia
Por
Cristiano
Gobbi
Começa pela tradução da palavra.
“Blues” quer dizer melancolia no jeito peculiar de falar
dos habitantes do delta do rio Mississipi, berço do
ritmo. E melancólicas são as raízes do blues. Ele começou
a surgir em agosto de 1619, quando o primeiro navio
negreiro atraca na costa-americana. Nos porões, negros
arrancados à força da África para o trabalho forçado
em lavouras de algodão, tabaco e milho nas cercanias
de New Orleans, nos estados de Alabama, Mississipi,
Lousiana e Georgia.
No espírito dos desafortunados
escravos, uma profunda saudade do que ficou para trás
e uma rica cultura folclórica amordaçada. Mas a musicalidade
latente dos africanos não tardaria a se manifestar.
Aos poucos, surgem as “work songs”, verdadeiros lamentos
melódicos, entoados pelos negros na árdua tarefa de
plantar e colher os produtos da terra. Enquanto uma
voz entoava um verso, os outros trabalhadores faziam
o coro. No início, nas línguas nativas: fon, bantu e
yorubá; com o passar do tempo, uma mescla de palavras
de dialetos africanos e inglês, incorporado na convivência
com os fazendeiros da região. Tudo a capela, de uma
froma primitiva mas não menos visceral, sentimental
e sempre rítmica. É a primeira manifestação musical
dos negros na América que começavam a erguer com o sacrifício
da liberdade perdida em pontos diferentes da África.
A Guerra da Secessão, vencida pelo norte, representa
a liberdade para os negros escravos do sul em 1865.
Nessa época, em New Orleans havia cinco negros para
cada quatro brancos. Muitos desses negros são netos
e bisnetos dos pioneiros escravos. Os recém libertos
também cantam e tocam, com a diferença de pelo menos
um século de assimilação da cultura branca. Começa a
surgir assim a figura do blueseiro, ainda com um banjo
em lugar da guitarra. Como o blues é uma música vocal
por natureza, em sua versão instrumental o ritmo exige
instrumentos de habilidade vocal, capazes de “imitar”
a voz humana. E nada melhor para se obter este efeito
do que a técnica de “knife-song”, de deslizar sobre
as cordas do violão uma placa metálica para se obter
um som lamurioso, que mais parece um gemido humano.
Assim a guitarra acústica desbanca o banjo e passa a
frequentar os braços, mãos & dedos dos blueseiros. Instrumentos
de percussão de origem africana como o djambè e harmônica,
com sua versatilidade, complementam o kit básico do
blues primordial, que não dispensa a interpretação,
o sentimento absoluto no cantar.
A esta altura as canções já não
são apenas lamentos, mas também bravatas, histórias
de rixas terminadas com filetes de sangue manchando
de vermelho as lâminas de navalhas, de mulheres conquistadas,
de corações despedeçados. Agora o inglês prepondera
sobre os dialetos africanos nas letras e o blues já
é uma música americana, feita por negros e cada vez
mais amada pelos brancos. Chega o rádio, o gramofone,
o show-business. Surgem cantoras como Bessie Smith e
guitarristas blueseiros como Ottis Redding. E isso tudo
é só o começo de uma longa história regada a paixão
pela música e litros e mais litros de Jack Daniels.
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